Educar pela Positiva

A criança e o cão de Pavlov

Sobre a reabertura das creches e do pré-escolar
 
Quando leio as medidas da DGS para o regresso das crianças à creche e ao pré-escolar, sinto um calafrio. Como pai e educador. São tantas as restrições, que fico com a ideia de que pensaram em tudo… menos nas próprias crianças.
 
Senão vejamos:
 
Como conseguirá uma criança com menos de 6 anos manter SEMPRE um distanciamento de dois metros das outras crianças? A minha filha, de 5 anos, não conseguirá certamente. Pode até consegui-lo durante uns minutos, mas ao longo do dia irá esquecer-se. Inevitavelmente.
 
Como irão reagir as crianças a verem todos os adultos à sua volta com máscaras, em permanência?
 
E como reagirão às rotinas diárias tão exigentes que estão previstas, em que mal poderão respirar ou agir fora do “plano”?
 
Não estaremos a torná-las em máquinas, numa espécie de cão de Pavlov que reage ao estímulo com uma determinada ação?
 
Também no que toca às próprias instituições, tenho dúvidas sobre se foram tidas em conta as especificidades de cada uma no momento de estabelecer estas medidas:
 
Como vão as creches cumprir a exigência de manter berços distanciados por 2 metros uns dos outros, quando a dimensão das salas raramente o permite?
 
Como irão as instituições cumprir a exigência de que cada bebé tenha a sua própria espreguiçadeira? Pedem aos pais para as trazerem de casa e enchem as salas de espreguiçadeiras?
 
Como irão sentar as crianças em mesas de “trabalho” orientadas no mesmo sentido (viradas para a educadora), quando a quase totalidade das salas funcionam com mesas redonda ou dispostas em “U”?
 
A aprendizagem faz-se pela observação e pela experimentação. E é pelo contacto com os outros que as crianças aprendem uma série de habilidade sociais e de vida.
 
Sei que estamos numa época de exceção. Sei que os nossos governantes também são humanos e que estão a fazer o melhor que podem (ou sabem). Sei também que não existem soluções perfeitas. Sei ainda que muitas famílias precisam desse apoio, que sem as creches abertas haverá empresas, negócios e empregos em risco. Mas estamos a falar de saúde pública! E da saúde das nossas crianças!
 
Com a implementação de medidas (a meu ver, desrazoáveis) como as anunciadas (sinceramente não estou a ver metade delas a serem cumpridas…) estaremos também a alterar, potencialmente, padrões de comportamento até agora estabelecidos. Estaremos a criar robôs, cheios de medo ansiosos e sem pinga de espontaneidade.
 
Que crianças vamos passar a ter, afinal, quando lhes ensinarmos que é perigoso tocar no outro, que (afinal) não é bom partilhar brinquedos ou outros objetos? Que comportamentos terão no futuro próximo?
 
Sim, é verdade que as crianças “adaptam-se a tudo”. Como se adaptam ao abandono, à indiferença ou à violência doméstica. Mas será isso um argumento válido para avançarmos desta forma com a reabertura?
 
Como pai, adoraria que tudo voltasse ao “normal”. Mas em condições de segurança ditadas… pelo bom senso!
 
É preciso avaliar o risco e, depois, simplificar. Se vão abrir as creches, façam-no implementando gestos simples (que até podem ser transformados em brincadeiras), como lavar as mãos e desinfetá-las ou trazer roupa e calçado de casa para ser usado exclusivamente na escola. Mas não exagerem.
 
Como em tudo, é preciso ser razoável. Aposto que a grande maioria dos mais de 9 mil trabalhadores das cerca de 630 creches privadas e 2600 IPSS do país não consideram estar reunidas as condições para reabrir.
 
E a si, faz-lhe sentido?
 
Grato,
 
Nuno Pinto Martins, Educador de Disciplina Positiva em contexto de sala e Educador Parental certificado em Disciplina Positiva ; autor do livro “Educar pela Positiva: um guia para pais e educadores” e fundador da Academia Educar pela Positiva.
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Nuno Martins

Nuno Martins é pai de duas crianças e Educador Parental e em contexto de Sala, certificado em Disciplina Positiva pela Positive Discipline Association. No primeiro trimestre de 2017 fundou a Academia Educar pela Positiva, através da qual dá a conhecer a pais e educadores poderosas "ferramentas" práticas para "ganhar os miúdos". Se quer entrar em contacto com ele escreva-lhe para educarpelapositiva@gmail.com!

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